Literatura – Lúcida Dani https://lucidadani.com.br Onde a leitura encontra a vida Mon, 28 Oct 2024 20:56:14 +0000 pt-PT hourly 1 https://wordpress.org/?v=6.9.1 https://lucidadani.com.br/wp-content/uploads/2025/05/cropped-cropped-Favicon-Lucida-Dani-32x32.png Literatura – Lúcida Dani https://lucidadani.com.br 32 32 Entre o limbo do luto e da gravidez https://lucidadani.com.br/entre-o-limbo-do-luto-e-da-gravidez/ https://lucidadani.com.br/entre-o-limbo-do-luto-e-da-gravidez/#respond Mon, 28 Oct 2024 20:51:43 +0000 https://lucidadani.com.br/?p=239 Como é que a gente consegue lidar com as dores da alma? Como é que a vida vai seguindo dia após dia quando perdemos alguém que amamos e ainda é preciso seguir também com uma gravidez? O tempo cura mesmo? A gente se transforma mesmo? 

A história: Beatriz está grávida e espera o momento certo para contar para o marido, mas a ocasião não surge e nesses poucos dias de intervalo após a confirmação, Cristiano morre, deixando-a entre perder um vínculo e construir outro. Vamos então acompanhar o dia a dia dessa mulher a partir das suas semanas de gestação, lidando com o luto, reorganizando a história com a própria mãe, entendendo o que fazer com as amizades, descobrindo quem ela é agora e quem ela vai querer ser num futuro próximo, mas também sentindo uma raiva gigante dentro de si que não sabe bem como e para quem direcionar, afinal a gestação não era pra ser aquele momento de plenitude? 

Porque ler: Tenho pra mim que o luto é tipo um limbo. Você não tem certeza do que está acontecendo em você. Às vezes tristeza seguida de fúria, às vezes só fúria ou só tristeza. Dependendo do caso, alguma culpa, um vazio. Geralmente tudo isso junto. E a vida correndo lá fora. O tempo meio perdido da sua velocidade normal, da realidade que apontamos como normal. Porque realidade, né, quem vai saber o tempo dela de verdade? Essa aceleração louca do mundo contemporâneo? Acho que não. 

Nesse livro, o tempo é o das semanas de gravidez de Beatriz. Eu mesma só passei a entender o meu tempo interno e percebê-lo realmente quando engravidei. O tempo é visível numa gravidez e depois, no crescimento de uma criança. 

Mas Beatriz está entre o tempo da gravidez e o limbo do luto. Uma enxurrada de transformações. Uma gravidez com 9 meses completos dura cerca de 40 a 42 semanas. Um ano são 52 semanas. 

Longo, quando pensamos assim. Bastante tempo para esperar. E para pensar em quem se foi. 

E Beatriz vai vivendo o dia após dia, as mudanças, os desejos de si mesma, não só os desejos hormonais. 

É um livro lindo que se move com muita destreza nesses limbos sobrepostos. Ah, sim, a gravidez é limbo também. Tantas perguntas e tantas metamorfoses nesse período. O papel de filha que será revisto, o amor dos pais que finalmente se transforma num respeito com R maiúsculo porque aí entende-se o visceral e o difícil dessa tarefa. Percebe-se as limitações todas também. E a vida correndo lá fora. E a gente querendo fazer parte desses mundos todos, Natal, presentes, viagem. Como é que a gente dá conta? 

Beatriz vai nos mostrando e seguindo sem saber pra onde está indo. Às vezes só seguindo mesmo. 

Cuidados com a leitura: Este é um livro muito fluido e rápido de ler. É um livro curto, mas que trata de assuntos enormes como luto, suic1d10 e desamparo. Portanto é importante atentar-se para os devidos gatilhos, se for o caso. 

Sobre a autora: Silvana Tavano nasceu em São Paulo, em 1957. Atuou por mais de 20 anos como jornalista, depois outros vinte anos e muitos prêmios como autora de livros infantis e juvenis. Em 2022 lança esse primeiro romance, finalista do Prêmio São Paulo de Literatura. Em 2024 lançou Ressuscitar Mamutes, até o momento também finalista do Prêmio São Paulo de Literatura. Seus livros foram publicados na Argentina, México, Japão, China, Itália, Alemanha, Suécia e Turquia. 

Ficha técnica: 

Título: O último sábado de julho amanhece quieto 

Autora: Silvana Tavano 

Editora: Autêntica Contemporânea 

Disponível na versão física e e-book 

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Em agosto nos vemos – Gabriel García Márquez https://lucidadani.com.br/em-agosto-nos-vemos-gabriel-garcia-marquez/ https://lucidadani.com.br/em-agosto-nos-vemos-gabriel-garcia-marquez/#respond Mon, 21 Oct 2024 20:28:10 +0000 https://lucidadani.com.br/?p=216 Vira e mexe aparece um livro novo daqueles autores que já não estão mais nesse nosso plano dos mortais e ajuda a matar a saudade daquelas páginas que tanto nos acompanharam. Muitas vezes não é exatamente um livro acabado, mas já dá aquela aquecida no coração. Esse é o caso do Em agosto nos vemos. 

A História: Ana Magdalena Bach todo ano leva flores ao túmulo de sua mãe em uma ilha que fica a 4 horas de viagem de onde ela mora. Todo ano ela faz o mesmo trajeto, pega o mesmo táxi e se hospeda no mesmo hotel. Chega no mesmo dia, compra as mesmas flores e chega ao cemitério no mesmo horário. No dia seguinte pega a barca de volta para casa. 

Em uma dessas viagens, porém, a noite de espera pelo retorno se torna aventura amorosa de uma noite e isso muda tudo, mesmo que ela não perceba e muito menos saiba o porquê. 

E assim Ana Magdalena Bach volta para casa, para o marido, para a vida de todo dia, mas não vê a hora de chegar o ano seguinte e o seguinte e o seguinte. 

Porque ler: Gabriel García Márquez era um contador de histórias imenso. Um narrador gigante como só poderia mesmo ter sido o autor de Cem Anos de Solidão. 

E ainda que esse seja um pequeno fragmento que não se sabe exatamente como seria publicado por ele, desde o início mergulhamos na história de Ana Magdalena Bach e sua família de músicos assim como toda música que está ao redor dessa história numa ilha caribenha e suas imagens suarentas. 

Não é o livro mais acabado de Gabo e está longe de ser o melhor também, mas é aquele alento para a saudade que todo fã ama quando encontra algo novo de um autor amado. 

No final do livro conhecemos por seu filho e seu editor como é que esse livro acabou publicado mesmo depois que Gabo mandasse que ele fosse destruído. 

Eu faria o mesmo que o filho e obviamente guardaria tudo o que meu pai Nobel de Literatura escrevesse, obrigada Rodrigo e Gonzalo Barcha! 

Além disso, edição capa dura e imagens de fac-símiles dessa história com os vários “ok, versão final” do autor, mostrando pra gente que não tem prêmio que mude o caminho caótico que pode ser escrever um livro. 

Obrigada pela linda edição, Dona Editora Record. 

Cuidados com a leitura: Para quem nunca leu Gabriel García Márquez e vai começar por esse, sugiro que, quando possível, leia os livros principais dele: O Amor nos Tempo do Cólera, Crônica de uma morte anunciada e, claro, o incomparável Cem Anos de Solidão. Porque nesses livros sim, você vai encontrar toda a potência desse escritor fantástico em tantos sentidos. 

Sobre o autor: Gabriel García Márquez ou Gabo para seus mais íntimos milhões de leitores, nasceu em 6 de março de 1927 na cidade de Aracataca, na Colômbia. Dos 2 aos 8 anos de idade mora com os avós nessa cidade. A vida familiar de Gabo sempre foi uma grande inspiração para seus livros e quando conhecemos essas histórias um pouco mais em sua autobiografia, vamos entendendo melhor como é que esse universo foi sendo criado dentro dele. Quando o avô morre, se muda para a casa dos pais em Barranquilla. 

Na juventude é atravessado pelas grandes narrativas como Mil e uma Noites, mas também pelo mundo literário de William Faulkner, de onde vem essa inspiração de montar imagens tão vívidas para suas histórias. 

Outro autor que o influenciou enormemente é Franz Kafka com seu A Metamorfose. Diz a lenda que foi com a transformação do personagem Gregor Samsa em inseto que Gabo teve suas primeiras ideias sobre o realismo mágico. 

Em 1948 começa sua carreira de jornalista em Cartagena das Índias e esse é só o início de uma história de amor com esse ofício que vai acompanhá-lo por toda a vida. Inclusive hoje nessa mesma cidade, funciona a Fundação Gabo que apesar de no momento presente estar mais centrada em divulgar e preservar o legado de seu fundador, iniciou suas atividades em 1994 como uma fundação para apoiar a atividade jornalística em vários aspectos. 

Seu primeiro livro foi publicado em 1955: La Hojarasca (em português, A Revoada). Em 1967, publica Cem Anos de Solidão e esse é considerado um marco para a literatura latino-americana. 

Em breve farei um post somente sobre Cem Anos de Solidão, mas para agora, basta saber que é literatura na sua mais pura versão. O puro suco do milho, diriam hahaha Em vez de Macondo, essa história poderia ser no Brasil ou em qualquer outro país do continente de tão representativo e universal que ela é. 

Em outubro de 1982, Gabo ganha o Nobel de Literatura e aí minha gente, não preciso nem falar que se já tinha uma popularidade em torno ele, imagina depois… 

E ainda tinha muito mais pra ser publicado como O Amor nos Tempos do Cólera que saiu em 1985 e em 2002 a maravilhosa autobiografia Viver para Contar. 

Gabo morreu em 2014, aos 87 anos, no México. Já havia anunciado aposentadoria, tinha questões com demência por conta da idade e outros problemas de saúde que deixavam a nós, fãs, sempre apreensivos. 

Falei aqui muito rapidamente porque a história desse autor é gigante para a literatura. Então quando falo que dá um quentinho ter livro novo dele, é por isso. 

Ficha técnica:

Título: Em agosto nos vemos

Autor: Gabriel García Màrquez

Editora: Record

Disponível em livro físico e e-book

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Perto do Coração Selvagem – Clarice Lispector https://lucidadani.com.br/resenha-perto-do-coracao-selvagem-clarice-lispector/ https://lucidadani.com.br/resenha-perto-do-coracao-selvagem-clarice-lispector/#respond Sat, 19 Oct 2024 18:17:53 +0000 https://lucidadani.com.br/?p=187 O primeiro livro da Clarice Lispector para ser nosso primeiro livro resenhado. “Perto do Coração Selvagem” é uma imersão no fluxo mental e profundo de uma personagem que busca, de maneira inquietante, seu próprio coração selvagem.

A História: Joana é uma criança com uma mente fértil, inquieta, cheia de energia e ao longo do livro vamos acompanhando a história dela através de flashbacks certeiros de diversos momentos de sua vida. 

Já no primeiro capítulo entendemos que o mundo interno de Joana é enorme! A menina, além de muita imaginação, tem uma maneira muito própria de se movimentar no mundo dos brinquedos, mas também com suas ideias. 

E a cada capítulo fica mais evidente como esse fluxo mental é gigante e tão ou mais importante quanto o que realmente acontece na vida de joana. 

E assim Joana adulta tem “certeza de que dá para o mal”. E fala desse mal. Seria Joana uma psicopata assassina? Não. Joana não está dentro do que dizem que ela deveria ser. Não sabe para que o “felizes para sempre” serve, rouba livros, causa desconforto com a tia que a acolhe, deseja o professor casado. E muitas outras situações que não são o principal da história. 

O principal é ela saber, tão criança, que com as pessoas “só se fala tolices.” Nada do que realmente importa pode ser dito. 

O importante é ela saber que ao lado do marido precisava ser outra e que ele nem imagina quem ela realmente era, que dentro dela pulsava esse selvagem que ela não sabia nomear (”Liberdade é pouco. O que eu desejo não tem nome.”) para ir se aprofundando em si mesma e fazer disso um objetivo, sem julgar, vivendo as situações com um certo desapego como ela aprendeu desde pequena. 

Aos poucos encontrando o tal coração selvagem que é o desejo de ser ela mesma. 

Porque ler: Ler Clarice Lispector é uma experiência a ser degustada. Não é uma leitura rápida porque não está focada em ações, no suspense. É o ritmo do mundo interno que pode ser rápido, às vezes lento, às vezes louco e imprevisível. Mas eu acho que o principal é que Clarice fala muito bem com o século XXI. Para nós, hoje, falar de paisagem mental, ler esse fluxo num livro não é estranho como era em 1943, quando ele foi lançado. Faz parte do vocabulário desse momento da sociedade. Inclusive esse desejo de Joana pelo coração selvagem da vida, pela essência, pelo tal do propósito, está cada vez mais presente no nosso cotidiano também. É quase uma forma de nos humanizar de novo já que somos só produtos, só máquinas, só engrenagens no louco mundo do dinheiro rápido. Joana está profundamente em busca de si mesma, escandalosamente como estamos todos hoje à beira da ansiedade, da insônia, da depressão, da falência, da loucura e do desconhecimento de nós mesmos. 

Cuidados com a leitura: Na maior parte das vezes, os livros de Clarice Lispector não são sobre seguir ações que um personagem está desenvolvendo e sim sobre como uma determinada ação é o resultado de diversos pensamentos, reflexões e impulsos: o fluxo interno acontecendo mesmo. Então não se assuste se você de repente viajar tanto no fluxo de pensamento que até esqueça como é que foi parar ali. Isso realmente acontece hahaha. 

Esse livro, especialmente, eu gosto de ler capítulo a capítulo porque a gente vai acompanhando começo, meio e fim de cada episódio e o pensamento fica ali me rondando e vou anotando umas coisas e percebendo outras. Clarice me dá essas vontades. 😊 

Últimas palavras: Eu quis começar o blog com esse livro porque ele sempre foi muito especial pra mim. Clarice também é muito especial pra mim. Os livros dela sempre me acompanharam em momentos em que minha saúde mental precisava reencontrar um caminho para o equilíbrio e a realidade. 

Eu mesma sempre estive nessa busca do coração selvagem da vida então me identifico enormemente com a Joana, mas também com a Clarice: meio incompreendida, mas seguindo com sua escrita, meio bruxa e vivendo do jeito que ela sabia viver, uma mulher que botava medo pela profundidade que ela parecia alcançar. 

Quando eu ouço pessoas dos anos 60 e 70 falando dela me parece que não entendiam que o profundo que Clarice acessava era ela mesma. Não era ver o profundo dos outros, era de si mesma. Mas o espelho, né. A expectativa. As pessoas acabavam vendo elas mesmas quando viam e quando liam Clarice. Só que numa profundidade que elas não conseguiam entender ou aceitar. 

Sabe aquela ideia de quando você olha o abismo ele te olha de volta. É isso. 

Sobre a autora: Clarice Lispector, nasceu em 10 de dezembro de 1920, na Ucrânia, foi uma das escritoras mais importantes do século XX. Autora de romances, contos e ensaios, sua obra é marcada por cenas do cotidiano e intensas tramas psicológicas, sendo famosa por explorar fluxos de pensamentos complexos de personagens comuns em momentos aparentemente simples.  

Filha de uma família judaica russa, Clarice veio para o Brasil com seus pais e irmãs em 1922, após a Guerra Civil Russa e a perseguição aos judeus. A família passou inicialmente por Maceió, antes de se estabelecer no Recife, onde Clarice cresceu. Aos oito anos, perdeu a mãe, e, aos quatorze, mudou-se com o pai e as irmãs para o Rio de Janeiro, onde se fixaram definitivamente.  

Clarice cursou Direito na Universidade Federal do Rio de Janeiro, mas logo se destacou no meio literário, atuando como tradutora, jornalista, filósofa e ensaísta. Com uma carreira literária marcada por sua originalidade, tornou-se uma das figuras centrais da literatura brasileira e do Modernismo, influenciando novas gerações de escritores. 

Sua obra é vasta e variada, com livros como Perto do Coração Selvagem (1943), seu romance de estreia, até A Hora da Estrela e Um Sopro de Vida, seus últimos trabalhos. Clarice faleceu em 9 de dezembro de 1977, um dia antes de completar 57 anos, vítima de câncer de ovário. Deixou dois filhos e um legado literário composto de romances, contos, crônicas, literatura infantil e entrevistas. 

Ficha técnica:

Título: Perto do Coração Selvagem

Autora: Clarice Lispector

Editora: Rocco

Disponível em livro físico, e-book e audiolivro

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