Lúcida Dani https://lucidadani.com.br Onde a leitura encontra a vida Thu, 17 Jul 2025 12:29:34 +0000 pt-PT hourly 1 https://wordpress.org/?v=6.8.3 https://lucidadani.com.br/wp-content/uploads/2025/05/cropped-cropped-Favicon-Lucida-Dani-32x32.png Lúcida Dani https://lucidadani.com.br 32 32 Meu primeiro projeto de leitura (e porque nunca mais parei) https://lucidadani.com.br/meu-primeiro-projeto-de-leitura-e-porque-nunca-mais-parei/ https://lucidadani.com.br/meu-primeiro-projeto-de-leitura-e-porque-nunca-mais-parei/#respond Thu, 17 Jul 2025 12:29:33 +0000 https://lucidadani.com.br/?p=290 Em julho de 2024 resolvi colocar em prática um projeto pessoal de ler e reler livros que fui guardando ao longo da vida. A ideia era bem simples e nada organizada, mas confesso que só de voltar a pensar em ler por prazer, já revivi dias inteiros em que essa era minha única preocupação na infância e na adolescência.

Uma casa sem livros (mas com uma leitora em formação)

Antes de continuar, talvez eu precise contar pra vocês que minha vida sempre foi repleta de livros. Não na minha casa exatamente, nossa família era bem pobre, meu pai completou somente o Ensino Fundamental I e quando eu nasci já era taxista. Minha mãe completou o Ensino Médio quando minha irmã caçula tinha uns três anos. Não era uma casa de intelectuais propriamente dita, não havia livros para crianças. Então não sei dizer exatamente como é que fui atraída para eles. Mas fui.

Talvez eu também precise dizer que sempre fui curiosa e determinada (pode chamar de teimosa também hahaha) e não tenho a memória exata, mas talvez tenha sido um pouco disso tudo que me levava todos os dias para a casa da tia professora que me alfabetizou aos 3 anos (conta a lenda da família).

As primeiras leituras e o dicionário da minha tia

Fato é que aos 6, 7 anos lá estava eu devorando tudo o que podia. Minha mãe tinha 4 coleções de livros compradas de um vendedor que ia oferecendo de porta em porta: obras completas do Machado de Assis, José de Alencar, Eça de Queiroz e Graciliano Ramos. Na minha tia tinha a coleção do Jorge Amado, uns livros Disney sobre países, uma edição de Os Três Mosqueteiros para jovens, uma edição luxuosa da Bíblia, um dicionário Aurélio daqueles enormes e o único infantil que realmente tive acesso nessa época, o Menino Maluquinho, do Ziraldo.

Eu li quase tudo isso antes dos 9 anos. Quase porque o Jorge Amado só fui realmente ler bem mais velha e ainda hoje está na lista de autores que preciso retomar. Eça de Queiroz nunca consegui ir além dos obrigatórios da escola e a Bíblia é uma longa história, conto em outro texto.

Me lembro bem dessa época, porque aos 9 me mudei dessa casa, e essa mudança foi bem marcante. Eu já tinha meus cadernos de dicionários que era onde eu ia anotando palavras em ordem alfabética para copiar o significado lá do dicionário da minha tia e depois reler tudo para tentar entender uma página. um parágrafo, coisas assim.

Mais descoberta do que compreensão

Então quando digo que lia, não era uma leitura crítica e nem que eu estava sequer entendendo do que se tratava aquela história. Era mais como uma viagem de descobrimento.

E a viagem era uma delícia. Eu poderia ficar horas entre livros e cadernos. Meus pais achavam muito estranho e durante toda a vida tenho memória de eles não saberem bem o que fazer com essa habilidade minha. Estavam o tempo todo entre o proibir e incentivar. E eu só indo.

Agatha Christie e o caderno dos livros lidos

Aos 12 descobri os livros da Agatha Christie na casa de uma vizinha, amiga da minha mãe. Li quase todos os que ela tinha, uns dez mais ou menos. Ela tinha mais que isso, mas dizia que eu não cuidava bem dos livros e me proibiu de pegá-los. Não cuidava mesmo, só quase os devorava. E eram todos capa dura, edições do Círculo do Livro. Entendedores entenderão hahaha

Aí começava o meu primeiro projeto. Ler todos os livros da Agatha Christie que eu conseguisse achar, se pudesse encontrar os 97 publicados naquele momento no Brasil, melhor ainda. Meu caderno agora era pra numerar todos os livros que eu lesse e anotar umas partes interessantes.

O mapa das bibliotecas e os clássicos do terror

Dos 12 aos 14 li mais ou menos 85 livros dela. Aprendi a andar sozinha pela cidade de SP atrás de bibliotecas em que pudesse ler ou emprestar os livros. No meio disso fui lendo muitas outras coisas: Christiane F., Stephen King, Drácula, Frankenstein e todos do século 19 que eu conseguia ler. Quando voltei ao Alexandre Dumas, Victor Hugo e Balzac, dei minha saga da Agatha Christie como concluída. Aqueles 80 e tantos livros já eram bem significativos.

A livraria como parque de diversões

Aos 17 eu estava procurando um jeito de trabalhar numa biblioteca. Sem sucesso, claro. Havia trabalhado numa papelaria que vendia livros, mas fui dispensada porque só queria ficar com os livros. E não era bem isso que a empresa precisava, digamos assim. De repente, fui acompanhar uma amiga numa entrevista na Fnac, que era um dos templos do livro naquela época, ano 2000. Minha amiga me incluiu na entrevista. Eu passei, ela não. Até hoje damos risada disso.

E aí foi que eu comecei a colecionar livros para ler em algum momento da vida. No início não era ler, era reler. Trabalhar numa livraria para mim, era como todo dia estar no parque de diversões e poder ir para a montanha russa quase o tempo todo.

Colecionando futuros

Quase porque trabalhar numa livraria tinha muitas outras tarefas além de ler, que é a última coisa que você faz durante o trabalho. Mas eu podia emprestar quase qualquer livro. Isso era visto como algo bom e inclusive me ajudava no trabalho. Quanto mais eu conhecesse de autores e livros, melhor era para indicar e achar os títulos na estante.

Então iniciou-se o período de ler muuuuuuuito, mas muito mesmo. Eu tinha uma ideia de que alguns livros precisariam de uma leitura futura porque eu não tinha tempo e nem conhecimento suficiente para compreender tudo o que eu deveria daquelas leituras. E poder comprar os livros que eu quisesse era fascinação pura hahaha

Nos próximos 17 anos que eu trabalharia em diversas livrarias, eventos literários e editoras continuei colecionando livros para esse futuro que eu nem cheguei a datar.

Bom, agora chegou.

E eu me pergunto se estou revisitando a garotinha fazendo seu próprio dicionário e depois a menina anotando seus livros lidos numa época em que eu não tinha internet e ninguém pra falar a respeito.

Enquanto fui trabalhando nesses lugares literários ou bibliófilos eu sempre tinha outros obcecados como eu, mas a vida de mãe e a minha mudança de áreas de trabalho foi também me distanciando dessa turminha.

Acho que hoje eu quero construir outra coisa e contando sobre meus projetos de leitura gostaria de ir incentivando outras pessoas também, tanto a me contar sobre suas próprias leituras quanto a começar o caminho delas nos livros.

Talvez seja uma grande pretensão minha, mas se nada der certo, pelo menos pude acertar as contas com uma parte importante de mim mesma e como recentemente li no livro A Boa Sorte, da Rosa Montero:

“Entrar num acordo [com a vida], a esta altura já sabemos, é o único êxito ao qual se pode aspirar.”

Até mais! 🙂

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Entre o limbo do luto e da gravidez https://lucidadani.com.br/entre-o-limbo-do-luto-e-da-gravidez/ https://lucidadani.com.br/entre-o-limbo-do-luto-e-da-gravidez/#respond Mon, 28 Oct 2024 20:51:43 +0000 https://lucidadani.com.br/?p=239 Como é que a gente consegue lidar com as dores da alma? Como é que a vida vai seguindo dia após dia quando perdemos alguém que amamos e ainda é preciso seguir também com uma gravidez? O tempo cura mesmo? A gente se transforma mesmo? 

A história: Beatriz está grávida e espera o momento certo para contar para o marido, mas a ocasião não surge e nesses poucos dias de intervalo após a confirmação, Cristiano morre, deixando-a entre perder um vínculo e construir outro. Vamos então acompanhar o dia a dia dessa mulher a partir das suas semanas de gestação, lidando com o luto, reorganizando a história com a própria mãe, entendendo o que fazer com as amizades, descobrindo quem ela é agora e quem ela vai querer ser num futuro próximo, mas também sentindo uma raiva gigante dentro de si que não sabe bem como e para quem direcionar, afinal a gestação não era pra ser aquele momento de plenitude? 

Porque ler: Tenho pra mim que o luto é tipo um limbo. Você não tem certeza do que está acontecendo em você. Às vezes tristeza seguida de fúria, às vezes só fúria ou só tristeza. Dependendo do caso, alguma culpa, um vazio. Geralmente tudo isso junto. E a vida correndo lá fora. O tempo meio perdido da sua velocidade normal, da realidade que apontamos como normal. Porque realidade, né, quem vai saber o tempo dela de verdade? Essa aceleração louca do mundo contemporâneo? Acho que não. 

Nesse livro, o tempo é o das semanas de gravidez de Beatriz. Eu mesma só passei a entender o meu tempo interno e percebê-lo realmente quando engravidei. O tempo é visível numa gravidez e depois, no crescimento de uma criança. 

Mas Beatriz está entre o tempo da gravidez e o limbo do luto. Uma enxurrada de transformações. Uma gravidez com 9 meses completos dura cerca de 40 a 42 semanas. Um ano são 52 semanas. 

Longo, quando pensamos assim. Bastante tempo para esperar. E para pensar em quem se foi. 

E Beatriz vai vivendo o dia após dia, as mudanças, os desejos de si mesma, não só os desejos hormonais. 

É um livro lindo que se move com muita destreza nesses limbos sobrepostos. Ah, sim, a gravidez é limbo também. Tantas perguntas e tantas metamorfoses nesse período. O papel de filha que será revisto, o amor dos pais que finalmente se transforma num respeito com R maiúsculo porque aí entende-se o visceral e o difícil dessa tarefa. Percebe-se as limitações todas também. E a vida correndo lá fora. E a gente querendo fazer parte desses mundos todos, Natal, presentes, viagem. Como é que a gente dá conta? 

Beatriz vai nos mostrando e seguindo sem saber pra onde está indo. Às vezes só seguindo mesmo. 

Cuidados com a leitura: Este é um livro muito fluido e rápido de ler. É um livro curto, mas que trata de assuntos enormes como luto, suic1d10 e desamparo. Portanto é importante atentar-se para os devidos gatilhos, se for o caso. 

Sobre a autora: Silvana Tavano nasceu em São Paulo, em 1957. Atuou por mais de 20 anos como jornalista, depois outros vinte anos e muitos prêmios como autora de livros infantis e juvenis. Em 2022 lança esse primeiro romance, finalista do Prêmio São Paulo de Literatura. Em 2024 lançou Ressuscitar Mamutes, até o momento também finalista do Prêmio São Paulo de Literatura. Seus livros foram publicados na Argentina, México, Japão, China, Itália, Alemanha, Suécia e Turquia. 

Ficha técnica: 

Título: O último sábado de julho amanhece quieto 

Autora: Silvana Tavano 

Editora: Autêntica Contemporânea 

Disponível na versão física e e-book 

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Em agosto nos vemos – Gabriel García Márquez https://lucidadani.com.br/em-agosto-nos-vemos-gabriel-garcia-marquez/ https://lucidadani.com.br/em-agosto-nos-vemos-gabriel-garcia-marquez/#respond Mon, 21 Oct 2024 20:28:10 +0000 https://lucidadani.com.br/?p=216 Vira e mexe aparece um livro novo daqueles autores que já não estão mais nesse nosso plano dos mortais e ajuda a matar a saudade daquelas páginas que tanto nos acompanharam. Muitas vezes não é exatamente um livro acabado, mas já dá aquela aquecida no coração. Esse é o caso do Em agosto nos vemos. 

A História: Ana Magdalena Bach todo ano leva flores ao túmulo de sua mãe em uma ilha que fica a 4 horas de viagem de onde ela mora. Todo ano ela faz o mesmo trajeto, pega o mesmo táxi e se hospeda no mesmo hotel. Chega no mesmo dia, compra as mesmas flores e chega ao cemitério no mesmo horário. No dia seguinte pega a barca de volta para casa. 

Em uma dessas viagens, porém, a noite de espera pelo retorno se torna aventura amorosa de uma noite e isso muda tudo, mesmo que ela não perceba e muito menos saiba o porquê. 

E assim Ana Magdalena Bach volta para casa, para o marido, para a vida de todo dia, mas não vê a hora de chegar o ano seguinte e o seguinte e o seguinte. 

Porque ler: Gabriel García Márquez era um contador de histórias imenso. Um narrador gigante como só poderia mesmo ter sido o autor de Cem Anos de Solidão. 

E ainda que esse seja um pequeno fragmento que não se sabe exatamente como seria publicado por ele, desde o início mergulhamos na história de Ana Magdalena Bach e sua família de músicos assim como toda música que está ao redor dessa história numa ilha caribenha e suas imagens suarentas. 

Não é o livro mais acabado de Gabo e está longe de ser o melhor também, mas é aquele alento para a saudade que todo fã ama quando encontra algo novo de um autor amado. 

No final do livro conhecemos por seu filho e seu editor como é que esse livro acabou publicado mesmo depois que Gabo mandasse que ele fosse destruído. 

Eu faria o mesmo que o filho e obviamente guardaria tudo o que meu pai Nobel de Literatura escrevesse, obrigada Rodrigo e Gonzalo Barcha! 

Além disso, edição capa dura e imagens de fac-símiles dessa história com os vários “ok, versão final” do autor, mostrando pra gente que não tem prêmio que mude o caminho caótico que pode ser escrever um livro. 

Obrigada pela linda edição, Dona Editora Record. 

Cuidados com a leitura: Para quem nunca leu Gabriel García Márquez e vai começar por esse, sugiro que, quando possível, leia os livros principais dele: O Amor nos Tempo do Cólera, Crônica de uma morte anunciada e, claro, o incomparável Cem Anos de Solidão. Porque nesses livros sim, você vai encontrar toda a potência desse escritor fantástico em tantos sentidos. 

Sobre o autor: Gabriel García Márquez ou Gabo para seus mais íntimos milhões de leitores, nasceu em 6 de março de 1927 na cidade de Aracataca, na Colômbia. Dos 2 aos 8 anos de idade mora com os avós nessa cidade. A vida familiar de Gabo sempre foi uma grande inspiração para seus livros e quando conhecemos essas histórias um pouco mais em sua autobiografia, vamos entendendo melhor como é que esse universo foi sendo criado dentro dele. Quando o avô morre, se muda para a casa dos pais em Barranquilla. 

Na juventude é atravessado pelas grandes narrativas como Mil e uma Noites, mas também pelo mundo literário de William Faulkner, de onde vem essa inspiração de montar imagens tão vívidas para suas histórias. 

Outro autor que o influenciou enormemente é Franz Kafka com seu A Metamorfose. Diz a lenda que foi com a transformação do personagem Gregor Samsa em inseto que Gabo teve suas primeiras ideias sobre o realismo mágico. 

Em 1948 começa sua carreira de jornalista em Cartagena das Índias e esse é só o início de uma história de amor com esse ofício que vai acompanhá-lo por toda a vida. Inclusive hoje nessa mesma cidade, funciona a Fundação Gabo que apesar de no momento presente estar mais centrada em divulgar e preservar o legado de seu fundador, iniciou suas atividades em 1994 como uma fundação para apoiar a atividade jornalística em vários aspectos. 

Seu primeiro livro foi publicado em 1955: La Hojarasca (em português, A Revoada). Em 1967, publica Cem Anos de Solidão e esse é considerado um marco para a literatura latino-americana. 

Em breve farei um post somente sobre Cem Anos de Solidão, mas para agora, basta saber que é literatura na sua mais pura versão. O puro suco do milho, diriam hahaha Em vez de Macondo, essa história poderia ser no Brasil ou em qualquer outro país do continente de tão representativo e universal que ela é. 

Em outubro de 1982, Gabo ganha o Nobel de Literatura e aí minha gente, não preciso nem falar que se já tinha uma popularidade em torno ele, imagina depois… 

E ainda tinha muito mais pra ser publicado como O Amor nos Tempos do Cólera que saiu em 1985 e em 2002 a maravilhosa autobiografia Viver para Contar. 

Gabo morreu em 2014, aos 87 anos, no México. Já havia anunciado aposentadoria, tinha questões com demência por conta da idade e outros problemas de saúde que deixavam a nós, fãs, sempre apreensivos. 

Falei aqui muito rapidamente porque a história desse autor é gigante para a literatura. Então quando falo que dá um quentinho ter livro novo dele, é por isso. 

Ficha técnica:

Título: Em agosto nos vemos

Autor: Gabriel García Màrquez

Editora: Record

Disponível em livro físico e e-book

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Amêndoas – Won-pyung Sohn https://lucidadani.com.br/amendoas-won-pyung-sohn/ https://lucidadani.com.br/amendoas-won-pyung-sohn/#respond Sun, 20 Oct 2024 21:38:38 +0000 https://lucidadani.com.br/?p=204 Esse é um livro classificado como literatura juvenil e ganhou as listas de mais vendidos depois que um dos integrantes do grupo de K-POP BTS o indicou num episódio do reality show que a banda protagoniza. Mas não se engane: Amêndoas, da escritora sul coreana Won-pyung Sohn não é só mais um livro sobre adolescentes. É um livro forte sobre encontrar seu lugar num mundo que está o tempo todo te empurrando para ser um igual ou um pária. 

A história: Yunjae é um garoto que começa contando sua história dizendo que esse é um livro sobre monstros e ele não demora pra nos contar como sua vida tem sido uma sequência de episódios muito desafiadores que por si só dão um livro, porque desestruturaria qualquer um. Mas esse livro aparentemente curto e rápido é muito mais do que isso. 

Yunjae tem uma condição diagnosticada como alexitimia que é uma dificuldade em menor ou maior grau de identificar emoções. No livro, o personagem fica entre não sentir, não identificar e claro, não demonstrar emoções. E isso o coloca em situações perigosas, mas também numa espécie de autismo porque se relacionar com o mundo é muito difícil. Ler as entrelinhas da realidade é impossível para Yunjae. E o mundo não tem piedade de quem não entende as regras básicas, não é? 

A família treina Yunjae para que ele consiga ter autonomia, possa se proteger e principalmente: para que ele não seja um alvo o tempo todo já que todo “diferente” se torna um alvo mais cedo ou mais tarde. 

Quando ele precisa cuidar de si mesmo ainda adolescente é que isso vai se intensificar, porque essa dificuldade é lida também como uma psicopatia. Afinal, o bom senso acredita que sua incapacidade de demonstrar emoções é o mesmo que não sentir. Mas a verdade é que as pessoas estão sempre curiosas sobre esse mundo de Yunjae e ninguém quer se aproximar o suficiente pra desmistificar nada. 

Estamos falando da sociedade atual, os jovens tem celulares, existe um entendimento sobre uma mínima inclusão, mas a prática da escola também reproduz a sociedade em que vivemos, não é? E vamos sentindo a indiferença e a impossibilidade desse garoto ser parte daquele mundo. Então ele tenta ser invisível pra passar logo por essa fase. 

E aí chega na escola mais um esquisito. Dessa vez um esquisito violento com uma história enorme de desamparo. Um garoto que desapareceu aos cinco anos e só foi encontrado novamente aos treze, depois de ser encontrado na China com adultos que não eram seus parentes, mas que diziam ser. Seu nome é Gon e no livro ainda tem outras camadas que ligam ele e Yunjae. O fato é que daí em diante Yunjae será o alvo predileto de Gon. Com muita briga e intimidação. 

O mais fantástico é que essa história não vai se transformar no Bem contra o Mal. Vai se transformar numa espécie de entendimento sobre amizade entre aqueles que não conseguem ser parte do mundo padrão. E não porque não tentem desesperadamente, mas porque pra eles é impossível mesmo. E é o menino que não sabe ler o mundo do sentir que vai conseguir compreender algo sobre o menino que sente tudo.

Gon e Yunjae viverão situações que os aproximam de uma forma que está muito longe do que vemos na lógica dos filmes adolescentes, não é o acaso que os define, é a posição de cada um deles lidando com suas limitações, tentando e errando muito, com a presença de adultos que não são os pais vilões, mas que não tem respostas para tudo e que não podem protegê-los porque a vida é o que é, não dá pra ser o padrão desejado. De perto, cada ser humano é único, ainda que a sociedade goste de dizer que não com seus papéis e regras sociais. 

Porque ler: Eu diria que esse livro deveria ser obrigatório nas escolas, mas também para todos os pais. Absolutamente todos. Porque é um livro que fala da complexidade que é ser adolescente na sociedade em que vivemos e que dá a impressão de ser fácil pela questão tecnológica, mas que continua sendo tão ou mais desafiador do que em qualquer outro tempo. 

E é muito desafiador criar filhos, e é muito desafiador amadurecer e é muito desafiador ser uma pessoa tida como esquisita em qualquer nível. Hoje já se sabe que essa não é uma marca qualquer e que o discurso do “fizeram comigo e eu sobrevivi” é facilmente desmascarado por qualquer profissional de saúde mental que atendeu mais de duas pessoas. Sim, minha gente, é nesse nível. 

Quanto de uma infância e adolescência tidas como adequadas ou inadequadas marcam as pessoas profundamente de formas conscientes e inconscientes, só na vida adulta conseguiremos, mais ou menos, entender a extensão disso. 

E quantos ainda, quando percebem como é um assunto complexo, simplesmente escolhem não pensar nele porque não tem resposta, nem certo e errado. A verdade é que vamos todos nós vivendo e encontrando nossos caminhos como conseguimos. 

E num livro tão curtinho, contando por um adolescente que nem sabe ler toda a complexidade do mundo isso é um tapa na cara de quem está do alto do seu conforto de energia elétrica, esgoto, água encanada, internet banda larga, celulares, Tvs gigantes, convênio médico, comida na mesa, achando que é melhor, que a vida está resolvida. Não é. Não está. 

E todo dia vemos como nossos jovens e crianças estão nos dando esses alertas, não só de hoje, na verdade, mas hoje com estatística pra comprovar, talvez. 

Então para esse livro eu daria vinte estrelas se pudesse. 

E nem falei da construção técnica dele que é realmente brilhante, porque inclusive ficamos incomodados com a maneira desse menino nos contar as coisas. Queremos parar, que menino chato e sem emoção, você se pega pensando em determinado momento. E depois está lá pensando: “Meu Deus, que perigo é a vida desse menino! Que desamparo é a vida do outro! Como ninguém vê?” 

Não vemos nem dos jovens que estão do nosso lado, será que veríamos se nos deparássemos com eles entre os colegas dos nossos filhos? 

É. Tapa na cara atrás de tapa na cara. 

Livro bom é assim. Depois que você leu, fica meses pensando, incomodada. Aí você lembra dele e não é que tem mais coisas ainda pra pensar? 

Cuidados com a leitura: Esse é um livro que vai falar de maneira muito forte sobre ser um excluído. Algumas cenas são bem fortes e violentas, mas nada gratuito, nem exagerado. Você percebe que faz parte do que a autora quer evidenciar sobre o desamparo desses personagens. 

O livro é contado pelo Yunjae, então tem momentos que parecem frios e às vezes meio sem jeito, mas essa é a voz de um garoto que está aprendendo a entender o que fazer com o mundo que ele narra. 

Outro ponto importante é: se você estiver procurando uma paisagem da sociedade sul-coreana esse não será o melhor livro para isso. Não são muitas as descrições de ambiente. É muito mais centrado na percepção do garoto e nos aspectos do cotidiano dele. 

Sobre a autora: Won-pyung Sohn nasceu em 1979, na Coréia do Sul. Antes de se tornar uma autora famosa e premiada pelo livro Amêndoas, ela já era uma diretora de cinema premiada. Na verdade, ambas as paixões remontam aos tempos escolares, e não é só isso. 

A autora é também formada em filosofia e sociologia e é daí que ela acredita vir seu interesse por escrever, como já disse em entrevistas.

Ela tem outros dois livros publicados, sendo que no Brasil, apenas um deles foi lançado: O Impulso, lançado na Bienal do Livro de SP, em 2024. E é claro, está na minha lista de próximos livros. 

Won-pyung Sohn não esteve no Brasil, mas fez um sucesso tremendo na Bienal do livro e está entre a onda sul-coreana que avassala o mundo com sua cultura. 

Particularmente acho fantástico que saibamos um pouquinho mais de um país que é tão diferente do nosso, mas é bom lembrar que nem tudo que é exportado como “produto cultural típico” representa a realidade daquele lugar. Brasileiros sabem bem disso. 

Voltando à autora, acho legal pontuar outras duas coisas: 

No final do livro tem uma nota dela contando um pouco de onde surgiu essa história e qual era o seu objetivo enquanto escrevia. 

Acho notas como essa muito interessantes porque o marketing sobre um best seller pode ir para caminhos bem bizarros e isso preserva um pouco mais da mensagem original que, vamos combinar, é forte e necessária. 

Nessa nota ela conta que fez o primeiro rascunho do livro enquanto a filha tinha quatro meses, motivada por questionamentos do amor incondicional de uma mãe por um serzinho tão dependente que pode dar tão certo e tão errado, dependendo do que a vida trouxer. 

Ela termina dizendo que: 

“(…) espero que esta narrativa tenha encorajado as pessoas a se aproximarem dos feridos, especialmente as jovens mentes que ainda têm grande potencial. Sei que isso é algo enorme para se desejar, mas desejo mesmo assim. Crianças querem ser amadas e podem também demonstrar amor acima de qualquer outra pessoa”. 

Gostei mais ainda depois que li essa nota. 

Amêndoas ganhou: 

Prêmio Changbi de Ficção para Jovens Adultos 

Prêmio Jeju 4.3 Peace Literary. 

Um parêntese – A tal da literatura de cura: Existe hoje, 2024, uma linha de livros que chamam de “literatura de cura” ou “literatura de conforto”, à qual Won-pyung Sohn foi atrelada e que, em entrevista, já rechaçou. Ainda não li muitos livros com essa alcunha, mas é um nome marketeiro, né, minha gente. Lembremos que sim, tem marketing para nos fazer comprar livros também. E tudo bem, só é bom lembrar que livros também são produtos e negócios. 

Mas o que me chama a atenção nesses livros é que há um interesse por algumas coisas: um conflito interno do personagem por encontrar seu lugar no mundo de alguma forma, personagens relativamente jovens, foco no conflito interno e não num romance ou numa experiência mais sexualizada e principalmente, muito longe do suspense, com uma cadência acolhedora, dentro de espaços idealizados como possivelmente confortáveis como bibliotecas, livrarias e afins, além de bebidas como chá, café, etc. 

Muitos desses livros tem sido associados a autores da Coréia do Sul e, minha gente, Amêndoas não tem nada de confortável. É desconforto do início ao fim. Então fiquei bem surpresa de ler coisas desse tipo durante a Bienal. Obviamente pessoas que não leram os livros. Sim, também tem disso nesse mercado. Por isso que é bom lembrar que é um produto como outro qualquer. 

E eu até acho que é por conta dessa selvageria e desconforto do mundo que “livros de cura” ou “livros de conforto” tem um lugar no coração das pessoas. 

Já diria Lenine: 

“Enquanto o tempo acelera e pede pressa 

Eu me recuso faço hora vou na valsa 

A vida é tão rara” 

(da música Paciência) 

Em breve lerei mais a respeito para poder falar melhor também. 

Últimas palavras: Desde que meu filho tinha uns 9 anos, convivo com o fantasma de bullying. As escolas estão pouquíssimo preparadas para lidar com o emocional que envolve os alunos enquanto estão muito mais preocupadas em encher o professor de trabalho, quando o principal trabalho deles deveria ser bons professores, focar em ensinar e perceber o aluno em instâncias que estão além da matéria e da tarefa porque isso faz uma diferença enorme na aprendizagem. 

Mas ok, já aceitei um pouco mais essa impossibilidade das escolas e também toda a complexidade que é lidar com pais que esperam que seus filhos sejam educados em todos os aspectos enquanto estão trabalhando todo o tempo que podem. Não estou dizendo que sou melhor não. Também não tenho as respostas para educar o meu filho e apesar de ser psicanalista e as pessoas acharem que isso é a resposta para todos os males, não é não. Estamos todos imersos na sociedade em que vivemos e é complexo pra todo mundo. Pra quem faz terapia também hahaha 

Mas comecei falando desse assunto porque meu filho teve um episódio de bullying que começou com algumas provocações pequenas que eu na hora percebi como uma tentativa do garoto se conectar com meu filho. Sim, minha gente, as pessoas fazem isso com muito mais frequência do que imaginamos. No caso, era uma criança de 10 anos fazendo isso com outra da mesma idade e claro, meu filho se defendia, porque a tentativa do outro era um ataque. 

Quando percebi que a coisa seguia e ia tomando um tamanho maior e a escola não se envolvia (porque pode mesmo parecer coisa de crianças, “eles se resolvem”, esses discursos que ainda tem bastante, porque é tudo muito subjetivo mesmo), conversei com a coordenadora que chamou os dois alunos para conversar, e neste caso, resolveu em 30 minutos. 

A coordenadora me ligou para contar e depois conversando com meu filho, era exatamente isso: para aquela criança, era uma maneira de estabelecer uma amizade. Ele não entendia porque estava errado. Passada a conversa, tornaram-se amigos. 

Respira fundo, minha gente. Nem sempre é assim que as coisas irão se apresentar obviamente, pode ser um nível muito mais sério sim, a escola pode se importar zero com a situação, pode haver crianças psicopatas, sim, mas no geral, vai aparecer aos poucos, testando a resistência de cada situação. 

E todo abuso vem seguido de vergonha, culpa e uma tentativa de pedido de ajuda. Essa é a hora que o canal aberto de diálogo entre pais e seus filhos é tão importante. 

Mas além do forte assunto de bullying que esse livro vai levantar tem outro ainda mais profundo: ser visto como o de fora, o monstro, o pária, o que ninguém quer por perto, o alvo. 

Nossa, Dani, esse é mais profundo que o bullying? 

Ah sim. Na verdade, é um dos lugares de onde vem o bullying, eu diria. A questão do pertencer e do não pertencer e como reagir a isso.

Yunjae não está muito preocupado com isso porque ele tem um funcionamento diferente, mas todo mundo ao redor dele se preocupa. Como ignorar isso na adolescência? 

Gon parece não se importar, mas na verdade ele está reagindo de uma maneira agressiva à própria certeza de que nunca mais vai pertencer. 

E os adultos desse livro de certa forma estão lá vivendo à própria maneira o seu não pertencer também: os pais do Gon que já não pertencem ao grupo de pais com uma história feliz sobre o filho tão amado, a vó e a mãe do Yunjae que vivem à sua maneira tentando lidar consigo mesmas e as expectativas uma da outra, até o dono da padaria que também não pertence mais ao mundo dos médicos bem sucedidos depois que a esposa morreu. 

No fim das contas, minha gente, é um livro sobre tolerância, sobre olhar para aqueles que estão fora ou feridos, sobre como essa história de padrão é absurda e desumana, mas como ela é uma questão vital para um jovem. Não tem nada de fácil. 

Ficha Técnica:

Título: Amêndoas

Autora: Won-pyung Sohn

Editora: Rocco

Disponível na versão física e e-book

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Perto do Coração Selvagem – Clarice Lispector https://lucidadani.com.br/resenha-perto-do-coracao-selvagem-clarice-lispector/ https://lucidadani.com.br/resenha-perto-do-coracao-selvagem-clarice-lispector/#respond Sat, 19 Oct 2024 18:17:53 +0000 https://lucidadani.com.br/?p=187 O primeiro livro da Clarice Lispector para ser nosso primeiro livro resenhado. “Perto do Coração Selvagem” é uma imersão no fluxo mental e profundo de uma personagem que busca, de maneira inquietante, seu próprio coração selvagem.

A História: Joana é uma criança com uma mente fértil, inquieta, cheia de energia e ao longo do livro vamos acompanhando a história dela através de flashbacks certeiros de diversos momentos de sua vida. 

Já no primeiro capítulo entendemos que o mundo interno de Joana é enorme! A menina, além de muita imaginação, tem uma maneira muito própria de se movimentar no mundo dos brinquedos, mas também com suas ideias. 

E a cada capítulo fica mais evidente como esse fluxo mental é gigante e tão ou mais importante quanto o que realmente acontece na vida de joana. 

E assim Joana adulta tem “certeza de que dá para o mal”. E fala desse mal. Seria Joana uma psicopata assassina? Não. Joana não está dentro do que dizem que ela deveria ser. Não sabe para que o “felizes para sempre” serve, rouba livros, causa desconforto com a tia que a acolhe, deseja o professor casado. E muitas outras situações que não são o principal da história. 

O principal é ela saber, tão criança, que com as pessoas “só se fala tolices.” Nada do que realmente importa pode ser dito. 

O importante é ela saber que ao lado do marido precisava ser outra e que ele nem imagina quem ela realmente era, que dentro dela pulsava esse selvagem que ela não sabia nomear (”Liberdade é pouco. O que eu desejo não tem nome.”) para ir se aprofundando em si mesma e fazer disso um objetivo, sem julgar, vivendo as situações com um certo desapego como ela aprendeu desde pequena. 

Aos poucos encontrando o tal coração selvagem que é o desejo de ser ela mesma. 

Porque ler: Ler Clarice Lispector é uma experiência a ser degustada. Não é uma leitura rápida porque não está focada em ações, no suspense. É o ritmo do mundo interno que pode ser rápido, às vezes lento, às vezes louco e imprevisível. Mas eu acho que o principal é que Clarice fala muito bem com o século XXI. Para nós, hoje, falar de paisagem mental, ler esse fluxo num livro não é estranho como era em 1943, quando ele foi lançado. Faz parte do vocabulário desse momento da sociedade. Inclusive esse desejo de Joana pelo coração selvagem da vida, pela essência, pelo tal do propósito, está cada vez mais presente no nosso cotidiano também. É quase uma forma de nos humanizar de novo já que somos só produtos, só máquinas, só engrenagens no louco mundo do dinheiro rápido. Joana está profundamente em busca de si mesma, escandalosamente como estamos todos hoje à beira da ansiedade, da insônia, da depressão, da falência, da loucura e do desconhecimento de nós mesmos. 

Cuidados com a leitura: Na maior parte das vezes, os livros de Clarice Lispector não são sobre seguir ações que um personagem está desenvolvendo e sim sobre como uma determinada ação é o resultado de diversos pensamentos, reflexões e impulsos: o fluxo interno acontecendo mesmo. Então não se assuste se você de repente viajar tanto no fluxo de pensamento que até esqueça como é que foi parar ali. Isso realmente acontece hahaha. 

Esse livro, especialmente, eu gosto de ler capítulo a capítulo porque a gente vai acompanhando começo, meio e fim de cada episódio e o pensamento fica ali me rondando e vou anotando umas coisas e percebendo outras. Clarice me dá essas vontades. 😊 

Últimas palavras: Eu quis começar o blog com esse livro porque ele sempre foi muito especial pra mim. Clarice também é muito especial pra mim. Os livros dela sempre me acompanharam em momentos em que minha saúde mental precisava reencontrar um caminho para o equilíbrio e a realidade. 

Eu mesma sempre estive nessa busca do coração selvagem da vida então me identifico enormemente com a Joana, mas também com a Clarice: meio incompreendida, mas seguindo com sua escrita, meio bruxa e vivendo do jeito que ela sabia viver, uma mulher que botava medo pela profundidade que ela parecia alcançar. 

Quando eu ouço pessoas dos anos 60 e 70 falando dela me parece que não entendiam que o profundo que Clarice acessava era ela mesma. Não era ver o profundo dos outros, era de si mesma. Mas o espelho, né. A expectativa. As pessoas acabavam vendo elas mesmas quando viam e quando liam Clarice. Só que numa profundidade que elas não conseguiam entender ou aceitar. 

Sabe aquela ideia de quando você olha o abismo ele te olha de volta. É isso. 

Sobre a autora: Clarice Lispector, nasceu em 10 de dezembro de 1920, na Ucrânia, foi uma das escritoras mais importantes do século XX. Autora de romances, contos e ensaios, sua obra é marcada por cenas do cotidiano e intensas tramas psicológicas, sendo famosa por explorar fluxos de pensamentos complexos de personagens comuns em momentos aparentemente simples.  

Filha de uma família judaica russa, Clarice veio para o Brasil com seus pais e irmãs em 1922, após a Guerra Civil Russa e a perseguição aos judeus. A família passou inicialmente por Maceió, antes de se estabelecer no Recife, onde Clarice cresceu. Aos oito anos, perdeu a mãe, e, aos quatorze, mudou-se com o pai e as irmãs para o Rio de Janeiro, onde se fixaram definitivamente.  

Clarice cursou Direito na Universidade Federal do Rio de Janeiro, mas logo se destacou no meio literário, atuando como tradutora, jornalista, filósofa e ensaísta. Com uma carreira literária marcada por sua originalidade, tornou-se uma das figuras centrais da literatura brasileira e do Modernismo, influenciando novas gerações de escritores. 

Sua obra é vasta e variada, com livros como Perto do Coração Selvagem (1943), seu romance de estreia, até A Hora da Estrela e Um Sopro de Vida, seus últimos trabalhos. Clarice faleceu em 9 de dezembro de 1977, um dia antes de completar 57 anos, vítima de câncer de ovário. Deixou dois filhos e um legado literário composto de romances, contos, crônicas, literatura infantil e entrevistas. 

Ficha técnica:

Título: Perto do Coração Selvagem

Autora: Clarice Lispector

Editora: Rocco

Disponível em livro físico, e-book e audiolivro

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