Em julho de 2024 resolvi colocar em prática um projeto pessoal de ler e reler livros que fui guardando ao longo da vida. A ideia era bem simples e nada organizada, mas confesso que só de voltar a pensar em ler por prazer, já revivi dias inteiros em que essa era minha única preocupação na infância e na adolescência.
Uma casa sem livros (mas com uma leitora em formação)
Antes de continuar, talvez eu precise contar pra vocês que minha vida sempre foi repleta de livros. Não na minha casa exatamente, nossa família era bem pobre, meu pai completou somente o Ensino Fundamental I e quando eu nasci já era taxista. Minha mãe completou o Ensino Médio quando minha irmã caçula tinha uns três anos. Não era uma casa de intelectuais propriamente dita, não havia livros para crianças. Então não sei dizer exatamente como é que fui atraída para eles. Mas fui.
Talvez eu também precise dizer que sempre fui curiosa e determinada (pode chamar de teimosa também hahaha) e não tenho a memória exata, mas talvez tenha sido um pouco disso tudo que me levava todos os dias para a casa da tia professora que me alfabetizou aos 3 anos (conta a lenda da família).
As primeiras leituras e o dicionário da minha tia
Fato é que aos 6, 7 anos lá estava eu devorando tudo o que podia. Minha mãe tinha 4 coleções de livros compradas de um vendedor que ia oferecendo de porta em porta: obras completas do Machado de Assis, José de Alencar, Eça de Queiroz e Graciliano Ramos. Na minha tia tinha a coleção do Jorge Amado, uns livros Disney sobre países, uma edição de Os Três Mosqueteiros para jovens, uma edição luxuosa da Bíblia, um dicionário Aurélio daqueles enormes e o único infantil que realmente tive acesso nessa época, o Menino Maluquinho, do Ziraldo.
Eu li quase tudo isso antes dos 9 anos. Quase porque o Jorge Amado só fui realmente ler bem mais velha e ainda hoje está na lista de autores que preciso retomar. Eça de Queiroz nunca consegui ir além dos obrigatórios da escola e a Bíblia é uma longa história, conto em outro texto.
Me lembro bem dessa época, porque aos 9 me mudei dessa casa, e essa mudança foi bem marcante. Eu já tinha meus cadernos de dicionários que era onde eu ia anotando palavras em ordem alfabética para copiar o significado lá do dicionário da minha tia e depois reler tudo para tentar entender uma página. um parágrafo, coisas assim.
Mais descoberta do que compreensão
Então quando digo que lia, não era uma leitura crítica e nem que eu estava sequer entendendo do que se tratava aquela história. Era mais como uma viagem de descobrimento.
E a viagem era uma delícia. Eu poderia ficar horas entre livros e cadernos. Meus pais achavam muito estranho e durante toda a vida tenho memória de eles não saberem bem o que fazer com essa habilidade minha. Estavam o tempo todo entre o proibir e incentivar. E eu só indo.
Agatha Christie e o caderno dos livros lidos
Aos 12 descobri os livros da Agatha Christie na casa de uma vizinha, amiga da minha mãe. Li quase todos os que ela tinha, uns dez mais ou menos. Ela tinha mais que isso, mas dizia que eu não cuidava bem dos livros e me proibiu de pegá-los. Não cuidava mesmo, só quase os devorava. E eram todos capa dura, edições do Círculo do Livro. Entendedores entenderão hahaha
Aí começava o meu primeiro projeto. Ler todos os livros da Agatha Christie que eu conseguisse achar, se pudesse encontrar os 97 publicados naquele momento no Brasil, melhor ainda. Meu caderno agora era pra numerar todos os livros que eu lesse e anotar umas partes interessantes.
O mapa das bibliotecas e os clássicos do terror
Dos 12 aos 14 li mais ou menos 85 livros dela. Aprendi a andar sozinha pela cidade de SP atrás de bibliotecas em que pudesse ler ou emprestar os livros. No meio disso fui lendo muitas outras coisas: Christiane F., Stephen King, Drácula, Frankenstein e todos do século 19 que eu conseguia ler. Quando voltei ao Alexandre Dumas, Victor Hugo e Balzac, dei minha saga da Agatha Christie como concluída. Aqueles 80 e tantos livros já eram bem significativos.
A livraria como parque de diversões
Aos 17 eu estava procurando um jeito de trabalhar numa biblioteca. Sem sucesso, claro. Havia trabalhado numa papelaria que vendia livros, mas fui dispensada porque só queria ficar com os livros. E não era bem isso que a empresa precisava, digamos assim. De repente, fui acompanhar uma amiga numa entrevista na Fnac, que era um dos templos do livro naquela época, ano 2000. Minha amiga me incluiu na entrevista. Eu passei, ela não. Até hoje damos risada disso.
E aí foi que eu comecei a colecionar livros para ler em algum momento da vida. No início não era ler, era reler. Trabalhar numa livraria para mim, era como todo dia estar no parque de diversões e poder ir para a montanha russa quase o tempo todo.
Colecionando futuros
Quase porque trabalhar numa livraria tinha muitas outras tarefas além de ler, que é a última coisa que você faz durante o trabalho. Mas eu podia emprestar quase qualquer livro. Isso era visto como algo bom e inclusive me ajudava no trabalho. Quanto mais eu conhecesse de autores e livros, melhor era para indicar e achar os títulos na estante.
Então iniciou-se o período de ler muuuuuuuito, mas muito mesmo. Eu tinha uma ideia de que alguns livros precisariam de uma leitura futura porque eu não tinha tempo e nem conhecimento suficiente para compreender tudo o que eu deveria daquelas leituras. E poder comprar os livros que eu quisesse era fascinação pura hahaha
Nos próximos 17 anos que eu trabalharia em diversas livrarias, eventos literários e editoras continuei colecionando livros para esse futuro que eu nem cheguei a datar.
Bom, agora chegou.
E eu me pergunto se estou revisitando a garotinha fazendo seu próprio dicionário e depois a menina anotando seus livros lidos numa época em que eu não tinha internet e ninguém pra falar a respeito.
Enquanto fui trabalhando nesses lugares literários ou bibliófilos eu sempre tinha outros obcecados como eu, mas a vida de mãe e a minha mudança de áreas de trabalho foi também me distanciando dessa turminha.
Acho que hoje eu quero construir outra coisa e contando sobre meus projetos de leitura gostaria de ir incentivando outras pessoas também, tanto a me contar sobre suas próprias leituras quanto a começar o caminho delas nos livros.
Talvez seja uma grande pretensão minha, mas se nada der certo, pelo menos pude acertar as contas com uma parte importante de mim mesma e como recentemente li no livro A Boa Sorte, da Rosa Montero:
“Entrar num acordo [com a vida], a esta altura já sabemos, é o único êxito ao qual se pode aspirar.”
Até mais! 🙂